Arquivo | junho, 2011

confessions

24 jun

Faziam-nos dormir de dois a dois, pés com cabeça, em caminhas. Eu me via sempre obrigada a dividir minha cama com aquele retardado do Jenö, o filho do padeiro e nosso vizinho de andar. Parecia um autêntico leitãozinho, limpo e rosado, com uma cabeçorra redonda e cheia de espinhas. Cheirava a levedura, e suas calças eram remendadas na bunda com pedaços de todas as cores. O garoto não dormia, virava-se de um lado para o outro e só dizia imbecilidades, blasfemando enraivecido. Eu não podia pregar o olho. Então, eu tirava a calcinha, segurava sua cabeça com as duas mãos e o forçava a encostar sua boca em minha xereca, minha cicciolina. Às gargalhadas eu dizia: “Cala a boca, imbecil, e sopra.”

E ele soprava. Depois parava, levantava sua cabeça vermelha e choramingava:

– Não aguento mais soprar! Está abafado e com cheiro de xixi.

– Xixi? Imbecil. Cala a boca e sopra…

Esse joguinho me agradava muito. Sentia coisas gostosas e tinha vontade de fazer xixi. Então eu fazia uma cara zangada e dava uns socos na cabeça dele para obrigá-lo a continuar. E ele recomeçava a soprar na minha cicciolina de garota. Eu tinha cinco anos.

Um dia, a professora nos pegou em meio a uma briga e substituiu o garoto por Ildiko, a filha do açougueiro, uma gordinha com tranças que cheiravam a manteiga e chucrute. Logo pedi-lhe que soprasse na minha fendinha, mas a garota, danada, enfiou a língua. Ela acariciava minha barriga e me pedia que fizesse o mesmo. Um dia, aquela sacaninha trouxe para a escola um salsichão que escondera na merendeira. Ela me ofereceu um pedaço. Peguei o salsichão pela ponta e o enfiei todinho na sua cicciolina. Ela desandou a berrar como um porco capado. Depois das chineladas e da bronca da professora, fui expulsa da escola.

Em casa, apanhei de novo e fui mandada para a cama sem jantar. Nossos jogos de criança, embora um pouco audaciosos, eram ainda inocentes. Não passavam de brincadeiras de crianças sabidas, estripulias de infância que me deixam boas lembranças.

No entanto, tantas sensações, tantos acontecimentos se apagaram de minha memória! Coisas bonitas ou tristes, lembranças que procuro reconstituir, arrumar ao meu jeito, enriquecer, encontrar-lhes uma continuação. Quando um detalhe isolado ressurge de improviso, tudo se torna então mais verdadeiro do que o real, e me sinto inundada de alegria.

 

 

CICCIOLINA. Confessions. Trad. P. C. Xavier. Rio de Janeiro: Record, 1987. Pg. 16 e 17.

 

Anúncios

ANDAMENTOS ATÉ AQUI

12 jun

A experiência tirada da segunda passagem do ERRO Grupo por Curitiba para o SalsichãoTainha terá sido incrível e esclarecedora. As ações de ativação dos espaços (e possíveis mediações da presença humana através de tecnologias digitais contemporâneas de uso recorrente) cartografados em sua passagem anterior pela capital paranaense englobaram visitas a espaços teatrais oficiais da cidade, praças no centro da cidade e propostas cênicas que buscam problematizar as conexões entre espaços públicos e privados, interferências nos fluxos desses ambientes e propiciar a relação das diversas presenças sociais envolvidas e midiatizadas nesses fluxos. Em uma fria e ensolarada quarta-feira 8/06, a Companhia Silenciosa recebeu o grupo florianopolitano em dia de jogo, Coritiba (3) e Vasco (2), da primeira final da Copa do Brasil. O hotel previsto para a hospedagem (e futuramente para as ações artísticas conjuntas) do grupo estrangeiro havia sido completamente tomado por integrantes da torcida vascaína. Boquiabertos e realocados em outro hotel, dessa vez unicamente para fins sumários de hospedagem mesmo, o grupo aguarda o meio dia do dia seguinte, que é quando o hotel previsto teria seus quartos almejados livres para o ensaio e a confabulação de cúpula das ações. A Companhia Silenciosa entra em contato com o roteiro de ações proposto pelo grupo visitante, intitulado PORNOSUSPENSE. Aforismos relativistas à parte, as “atrizes” (para não citarmos suas outras qualidades, intrínsecas e extrínsecas) da Silenciosa gostam muito do papel de atrizes, tem satisfação e comprazimento naquilo. O ator da Silenciosa também atua como “produtor” (para não nos atermos em suas outras funções sociais ou titulações). Há entre nós o desejo do contato, estamos experimentando a convivência e absorvendo a tainha por algum canto onde a salsicha, agora, não poderá entrar. Sim, nós temos um gráfico de ações! Estamos em terras brasileiras, temos futebol por perto, temos torcidas enlouquecidas e muitas vezes xenófobas. Estamos diante do maior império teatral da cidade, o prédio do Centro Cultural Teatro Guaíra, que a tudo acompanha em silêncio sem nada poder oferecer; pedimos autorização para utilização do espaço para filmagens e parte das ações, que nos foi negada: trata-se, agora, de apenas um lindo teatro antigo e mal cuidado, outrora glamouroso, transformado em edifício de funcionarismo público contemporâneo. Na manhã da quinta-feira 9/06, rumamos todos para uma ação inusitada no Grande Auditório do Teatro Positivo, lugar gracioso, belo e meticulosamente construído para uma grandiosa cena teatral à grega. A equipe gerenciadora deste teatro — privado, vale lembrar — nos autorizou de imediato a utilização de seus espaços internos para a filmagem do vídeo pré-gravado componente do roteiro de PORNOSUSPENSE. Um palco, uma plateia dócil e inexistente, cortinados e veludos apropriados, um tango e uma punhetinha furtiva. Lá fora o frio racha as peles polacas da região. À tarde todos fazemos entrada nos quartos do hotel onde o grupo está hospedado, local de parte de nossas ações programadas para o dia seguinte. Temos contato com a exorbitante quantidade de fiações por onde obteremos energia para o funcionamento de nossa tecnologia, ainda não inteiramente dominada. Também recebemos mais instruções para o funcionamento dos nossos corpos dentro dessas ações, nossos corpos, porém, são de uma tecnologia um pouco mais dominada, talvez porque nos seja inerente, mas só talvez. Nossos roteiros trazem informações como “a verdade está do outro lado”, “o que está longe pode vir a ficar perto”, Cicciolina, pizza, flâmula italiana, áudios do Google Tradutor, cenas de banheiro, dança, higiene pessoal, público dentro de um dos quartos, gente dormindo, camareiras, projeção de imagens íntimas através da janela de outro dos quartos, pratos com leite, bondage, masturbações (intelectuais e físicas), boneca inflável na marquise, atrito físico, denúncias de vandalismo, invasões calculadas, fumaça espetaculosa, Humphrey Bogart, James Dean e, claro, um belo e acintoso salsichão local. Câmeras, computadores e sites de relacionamento social na internet mediam tudo, a tudo olham e a tudo gravam, parodiam tudo, extrapolam tudo e a tudo contem. O PORNOSUSPENSE, realizado com uma hora de atraso (a tecnologia humana também falha), às 19 horas da sexta-feira 10/06, aliviou nossa tensão. Tivemos, com ele, um meio de pôr para fora o tesão grupal recolhido, na primeira ação artística inédita e conjunta realizada entre ERRO Grupo e Companhia Silenciosa depois de oito anos de namoro e rusgas à distância. A gozada foi boa, porém.

No meio dia do sábado 11/06 seguinte, nós nos encontramos relaxados, participativos e opinativos para uma conversa muito esclarecedora dos rumos em questão nesse nosso intercâmbio sulista. Surgiram-nos questões chave como: teatro, performance art, teatro dramático e teatro pós-dramático, lugar de onde se vê, lugar de onde não se vê, reação física ativa do espectador, espetáculo, arte diluída no cotidiano, visibilidade X invisibilidade como posicionamento político, características das funções próprias dos atores, características das funções próprias dos performers, características das funções próprias dos atores/performers, características das funções próprias dos diretores, características das funções próprias dos produtores culturais, características das funções próprias da equipe técnica, características das funções próprias de quem mistura todas as funções anteriores, semelhanças e diferenças no funcionamento interno de ambos os coletivos, machismo, feminismo, sexismo, heterossexismo, gêneros (biológicos e artísticos), sexualidade, delimitação de fronteiras entre linguagens e a subsequente desaparição dessas delimitações fronteiriças. Nosso SalsichãoTainha está crescendo a olhos vistos!

Às 15 horas do mesmo sábado, o ERRO Grupo realizou uma explanação para a comunidade local interessada sobre os temas e as articulações artísticas trabalhados no coletivo desde seu surgimento até seu momento atual. A conversa, de caráter informal, contou ainda com a apresentação de vídeos (demonstração de trabalho) e distribuição de programas de ações artísticas anteriores e mostras dos modos de produção com os quais o grupo trabalha e se relaciona. A Companhia Silenciosa está silenciosa, absorvente, e se prepara para sua próxima passagem pela capital do Estado de Santa Catarina no final da segunda metade do mês de julho próximo, quando realizará seu quinhão das ações artísticas previstas por este projeto. De minha parte (aqui anônima e subversiva) posso dizer que já estamos sentindo falta dessas coisas de que, em tão pouco tempo, somos capazes juntos. Quem viver verá!

AGORA!

11 jun

Agora!!
Erro Grupo abre tudo em conversa no Danny Snooker!
Daqui vemos o Bondinho da Rua VX.
Até às 18h.

DEPORNOSUSPENSE

10 jun

Segredo:

Duas palavras para agilizar e facilitar a produção teatral em Curitiba –

1 – Teatro

2 – Guaíra

PORNOSUSPENSE

7 jun

PORNOSUSPENSE

O ERRO Grupo estará em Curitiba em intercâmbio com a Companhia Silenciosa, entre os dias 08 e 12/06, para mais uma etapa do projeto Salsichão no Boquerão/Tainha na Prainha pelo Rumos Itaú Cultural – Teatro. As atividades abertas ao público serão realizadas no dia 10 e 11. No dia 10, sexta-feira, o grupo realiza duas ações com participação da Companhia Silenciosa, denominadas PORNOSUSPENSE, em espaços específicos escolhidos em território curitibano e no sábado, dia 11, realiza uma conversa sobre o trabalho e as pesquisas realizadas no ERRO.

Salsichão no Boquerão/Tainha na Prainha, parceria entre o ERRO Grupo, de Florianópolis, e a Companhia Silenciosa, de Curitiba, viabilizada pelo Programa Rumos Itaú Cultural Teatro – Edição 2010/2012, tem como base de pesquisa a cartografia e a ativação de diferentes espaços das duas cidades.

Após uma primeira viagem de intercâmbio na capital paranaense para a cartografia de espaços de ação na cidade, em março de 2011, o ERRO Grupo retorna a Curitiba para realizar, em espaços específicos que fizeram parte da primeira atividade, uma série de intervenções urbanas de ativação e compartilhamento com o espaço e a comunidade local.

PORNOSUSPENSE é uma série de ações criada pelo ERRO Grupo para dialogar com as suas experiências espaciais e sensoriais em solo curitibano e com as reverberações do intercâmbio com a Silenciosa. As ações, além de interferirem no fluxo cotidiano da cidade, propõem uma espécie de apresentação das observações do ERRO sobre as suas experiências na cidade aos seus espaços e ao cidadão curitibano.

Um dos locais de PORNOSUSPENSE é a Rua Amintas de Barros na altura do CCTG – Teatro Guaíra, um espaço tão importante para a construção cultural de Curitiba. A Silenciosa propôs ao ERRO a cartografia desse lugar e agora o grupo devolve ao espaço as suas impressões sob forma de intervenção. Na sexta-feira dia 10/06, portanto, às 18 horas será realizada esta parte da série. A outra parte acontecerá nesse mesmo dia, às 12 horas (meio-dia), na Praça Carlos Gomes.

No dia 11/06/11, sábado, das 15h às 18h na Praça Zacarias, no Centro, o ERRO realizará uma demonstração e conversa sobre os trabalhos e as pesquisas do grupo ao longo dos seus 10 anos de prática. Esta atividade será aberta e gratuita como as ações do dia 10/06.

PORNOSUSPENSE opera a presença cênica de modo a criar e subverter as suas próprias estratégias de mediações e extensões da atuação dos atores/performers no espaço público. A série de intervenções advém do estudo de possibilidades e potencialidades da presença cênica que evidenciam as vias e níveis de altura de deslocamento, invasão e ocupação durante a ação nas ruas, mas também expressam a sua própria ilusão de solução contemporânea. A proposta do ERRO é explorar os níveis de percepção e interpretação sobre as situações próprias da rua, através da arquitetura, dos ângulos de visão, das mediações e reverberações das problemáticas geradas pelo fluxo urbano e por sistemas situacionais oriundos das fricções cotidianas das pessoas que transitam na cidade.

O deslocamento, a ocupação e a invasão propostos por PORNOSUSPENSE tentam extrair o potencial cênico de espaços que compõem a urbe e a paisagem de Curitiba, sejam estes construídos ou não, e autorizados ou não, para as intervenções que estão concentradas primordialmente na questão da presença cênica, suas possíveis mediações e suas múltiplas relações, estético-políticas, com as cidades. A série de ações se constrói tendo como referência as teorias de Hakim Bey, Guy Debord, Marc Augé e Johan Huizinga, e alguns trechos de escritos de George Bataille e Qorpo Santo, que expressam a capacidade do cidadão performativo de distinguir ou não entre o real e o virtual e entre o público e o privado. Nessa série de ações em percurso, elaborado a partir de uma ideia de sub-turismo, ou turismo do devir, o ERRO reflete e interfere através de PORNOSUSPENSE.

SUPORNOSUSPENSE

4 jun

 

 

COMPORNOSUSPENSE

3 jun

%d blogueiros gostam disto: