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SEMINAR PORNOSUSPENSE

10 set

TEXTO DE ABERTURA DE SEMINAR PORNOSUSPENSE (ERRO Grupo)

Bem vindos ao Seminar Pornosuspense. Hoje vamos apresentar a vocês alguns elementos pesquisados no Projeto Salsichão no Boquerão Tainha na Prainha que tem como cerne de pesquisa indagações sobre a presença cênica, suas possíveis mediações e extensões e construções de frestas, deslocamentos e rupturas no espaço. Como podem ver, estamos no prédio do Itaú, assim, esses aspectos serão explorados de acordo com as possibilidades deste ambiente.  E também dentro do que foi possível investigar nesses 06 meses sobre temas bastante amplos e porque não, um tanto megalomaníacos.

Tentamos trazer para este espaço institucional alguns elementos da rua, local onde costumamos agir, e também foi nele que boa parte de nossa pesquisa foi realizada. Andando por locais pouco prováveis e também óbvios das cidades de Curitiba, São Paulo e Florianópolis, a fim de encontrar frestas para a ação artística, experimentando a rede de relações que as cidades estabelecem com seus espaços físicos e simbólicos.

Como sabem este programa especifico do Itaú Cultural Teatro, é um programa de compartilhamento entre dois grupos e apesar de ambos utilizarem estratégias similares para a abordagem dos conceitos desta pesquisa, nossa apresentação aqui será dividida primeiramente com a apresentação do Seminar Pornosuspense do ERRO Grupo e seguirá com o El Gran “Cabernet” Porno, Cabaret Porno, da Companhia Silenciosa.

Tendo em vista que o espaço urbano não é unicamente a rua, buscamos trazer para cá também o ambiente do hotel, que em nossas viagens, além de servir como local de estadia, serviu como berço para uma indagação a respeito do deslocamento das privacidades para um ambiente amorfo, nada individual. E por conseqüência sobre a facilidade em nos adaptarmos a níveis cada vez menores de individualização e senso de exposição. Ao mesmo tempo em que os objetos procuram seduzir pelo apelo ao indivíduo, a massificação dos desejos, a ordem das aparências está exposta. Tornar o mundo perfeito é dar-lhe acabamento, é encontrar para ele uma solução final.

O encontro do Salsichão e da Tainha, ao contrário do imaginado, não foi nada romântico, o intercâmbio de fluídos proposto pelo programa Rumos Itaú Cultural Teatro é também um projeto que tem inerente não só a fluência das trocas, mas também o confronto, o embate entre formas de fazer arte e de entender os conceitos esboçados no projeto. O intercâmbio teve que lidar com a exposição dos complexos de cada grupo, agendas, as dificuldades na conciliação de um plano de trabalho. Muitos estranhamentos e conflitos estiveram presentes nesta relação pessoal e profissional, de enlaçamento de dois corpos grupais em busca do gozo, sob o olhar atento de uma instituição.

Ao tratarmos da extensão da presença cênica, foi inevitável pensarmos sobre as redes sociais e virtuais, que tanto alteraram e alteram o que conhecemos enquanto espaço público e espaço privado. Através das redes sociais é possível adentrar na privacidade do outro, naturalizando ver e sermos vistos, naturalizando uma problemática já bem antiga, que se resume nas análises de Michel Foucault e se expande para idéia de Sociedade do Espetáculo, proposta por Guy Debord, onde ser visto é o que se almeja. Tudo que aparece é bom, e o que é bom aparece. E a cada dia nos sentimos mais e mais livres para adentrar espaços que há pouco tempo atrás eram privados. E para que outros entrem o nosso espaço privado, somos incitados a aparecer e a deixar-nos ver. Nas extensões de presença aqui em questão tudo se torna informação e o que não pode ser traduzido em informação não é real. O perfeito pode ser obra de cálculo. 

Alterada a forma de contato e comunicação entre as pessoas através da proliferação das possibilidades de agir no mundo virtual, nesta pesquisa também nos vimos diante do paradoxo do prazer. Somos constantemente seduzidos pela idéia de prazer, e o prazer sempre está ligado intimamente aos 05 sentidos humanos, e simultaneamente, na virtualidade, somos reduzidos a ver e a escutar. E fazer ver, através de diversas mediações, um mundo que já não é diretamente apreensível, nos levando à abstração generalizada dos fatos, das relações e dos sentidos.

Já no início da comunicação dentro do projeto, Salsichão e Tainha pensavam muito em comida. No prazer carnal de comer. Na realidade indiscutível de comer. Na presença dos alimentos nas bocas, no estômago, no intestino e de sua passagem pelos órgãos sexuais. Assim, os dois fantasiaram por meses nas duas iguarias, o Salsichão e a Tainha, passando das preliminares para a consumação sexual implícita no imaginário destes dois alimentos. Um tão natural e o outro processado, em uma combinação escrachada, explícita e obscena. E a obscenidade destes dois elementos começou a fazer sentido dentro da pesquisa que estavam inseridos, penetrando nas frestas, criando rupturas em todos os orifícios do corpo, dos espaços, rompendo os limites entre estar dentro e fora, entre a presença e suas mediações. A obscenidade traduziu a forma como a presença se dá em suas extensões e mediações.

Para Salsichão e Tainha não havia mais romance, não havia mais teatro, apenas a real consumação dos meios, onde os órgãos sexuais, o ato sexual, não eram mais “postos em cena”, e sim, grosseira e imediatamente, dados a ver, devorados, absorvidos e reabsorvidos no mesmo ato.  Quando a pesquisa sobre tais conceitos chegou ao clímax, dadas imediatamente enquanto realidade concreta, se fixou na obscenidade. Não havia mais representação, apenas a impossibilidade da representação da qual a pornografia é um exemplo dado.

Tentamos aqui apresentar de forma didática algumas frestas e possibilidades de explorar através da ação cênica, as problemáticas que acabo de citar, mas também buscamos um espaço para compartilhar com vocês os caminhos percorridos no encontro de Salsichão e Tainha. Do erro e do silêncio.

A mediação da presença investigada neste encontro não afastava mais nada… A maldição que Salsichão e Tainha enfrentavam era a de estarem super aproximados e de tudo ser imediatamente existente como realidade. O espetáculo não é apenas o que é dado para ser visto, o que parece, mas não é, e sim o que parece ser e ao mesmo tempo é, obscenamente, real. Para Salsichão e Tainha não havia mais romance, não havia mais teatro, apenas a realidade demasiadamente real da consumação.

O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediadas por imagens.

No mundo re-invertido, o verdadeiro é um momento do falso.

Mais informações: http://www.errogrupo.com.br/v4/pt/2011/09/10/registros-seminar-pornosuspense/

PORNOSUSPENSE – DIA

28 ago

 

PORNOSUSPENSE – DIA

Intervenção urbana do ERRO Grupo realizada em Curitiba no dia 10/06/2011.

Criação: ERRO Grupo
Atores: Juarez Nunes e Luana Raiter
Edição: Pedro Bennaton
Filmagem: Henrique Saidel
Técnico de som: Michel Marques
Participação especial: Cicciolina (Llona Staller)

Projeto Salsichão no Boquerão / Tainha na Prainha

 

la piel que habitaré

24 ago

 

 

 

 

 

Vi-ver Cu-ritiba.

17 ago

PORNOSUSPENSE – ERRO Grupo

Dia

10/06/2011 – Praça Carlos Gomes

Noite

10/06/2011 – Esquina da Rua Amintas de Barros com a Rua Tibagi

Fotos: Henrique Saidel e Alessandra Haro

Political Woman

1 jul

confessions

24 jun

Faziam-nos dormir de dois a dois, pés com cabeça, em caminhas. Eu me via sempre obrigada a dividir minha cama com aquele retardado do Jenö, o filho do padeiro e nosso vizinho de andar. Parecia um autêntico leitãozinho, limpo e rosado, com uma cabeçorra redonda e cheia de espinhas. Cheirava a levedura, e suas calças eram remendadas na bunda com pedaços de todas as cores. O garoto não dormia, virava-se de um lado para o outro e só dizia imbecilidades, blasfemando enraivecido. Eu não podia pregar o olho. Então, eu tirava a calcinha, segurava sua cabeça com as duas mãos e o forçava a encostar sua boca em minha xereca, minha cicciolina. Às gargalhadas eu dizia: “Cala a boca, imbecil, e sopra.”

E ele soprava. Depois parava, levantava sua cabeça vermelha e choramingava:

– Não aguento mais soprar! Está abafado e com cheiro de xixi.

– Xixi? Imbecil. Cala a boca e sopra…

Esse joguinho me agradava muito. Sentia coisas gostosas e tinha vontade de fazer xixi. Então eu fazia uma cara zangada e dava uns socos na cabeça dele para obrigá-lo a continuar. E ele recomeçava a soprar na minha cicciolina de garota. Eu tinha cinco anos.

Um dia, a professora nos pegou em meio a uma briga e substituiu o garoto por Ildiko, a filha do açougueiro, uma gordinha com tranças que cheiravam a manteiga e chucrute. Logo pedi-lhe que soprasse na minha fendinha, mas a garota, danada, enfiou a língua. Ela acariciava minha barriga e me pedia que fizesse o mesmo. Um dia, aquela sacaninha trouxe para a escola um salsichão que escondera na merendeira. Ela me ofereceu um pedaço. Peguei o salsichão pela ponta e o enfiei todinho na sua cicciolina. Ela desandou a berrar como um porco capado. Depois das chineladas e da bronca da professora, fui expulsa da escola.

Em casa, apanhei de novo e fui mandada para a cama sem jantar. Nossos jogos de criança, embora um pouco audaciosos, eram ainda inocentes. Não passavam de brincadeiras de crianças sabidas, estripulias de infância que me deixam boas lembranças.

No entanto, tantas sensações, tantos acontecimentos se apagaram de minha memória! Coisas bonitas ou tristes, lembranças que procuro reconstituir, arrumar ao meu jeito, enriquecer, encontrar-lhes uma continuação. Quando um detalhe isolado ressurge de improviso, tudo se torna então mais verdadeiro do que o real, e me sinto inundada de alegria.

 

 

CICCIOLINA. Confessions. Trad. P. C. Xavier. Rio de Janeiro: Record, 1987. Pg. 16 e 17.

 

ANDAMENTOS ATÉ AQUI

12 jun

A experiência tirada da segunda passagem do ERRO Grupo por Curitiba para o SalsichãoTainha terá sido incrível e esclarecedora. As ações de ativação dos espaços (e possíveis mediações da presença humana através de tecnologias digitais contemporâneas de uso recorrente) cartografados em sua passagem anterior pela capital paranaense englobaram visitas a espaços teatrais oficiais da cidade, praças no centro da cidade e propostas cênicas que buscam problematizar as conexões entre espaços públicos e privados, interferências nos fluxos desses ambientes e propiciar a relação das diversas presenças sociais envolvidas e midiatizadas nesses fluxos. Em uma fria e ensolarada quarta-feira 8/06, a Companhia Silenciosa recebeu o grupo florianopolitano em dia de jogo, Coritiba (3) e Vasco (2), da primeira final da Copa do Brasil. O hotel previsto para a hospedagem (e futuramente para as ações artísticas conjuntas) do grupo estrangeiro havia sido completamente tomado por integrantes da torcida vascaína. Boquiabertos e realocados em outro hotel, dessa vez unicamente para fins sumários de hospedagem mesmo, o grupo aguarda o meio dia do dia seguinte, que é quando o hotel previsto teria seus quartos almejados livres para o ensaio e a confabulação de cúpula das ações. A Companhia Silenciosa entra em contato com o roteiro de ações proposto pelo grupo visitante, intitulado PORNOSUSPENSE. Aforismos relativistas à parte, as “atrizes” (para não citarmos suas outras qualidades, intrínsecas e extrínsecas) da Silenciosa gostam muito do papel de atrizes, tem satisfação e comprazimento naquilo. O ator da Silenciosa também atua como “produtor” (para não nos atermos em suas outras funções sociais ou titulações). Há entre nós o desejo do contato, estamos experimentando a convivência e absorvendo a tainha por algum canto onde a salsicha, agora, não poderá entrar. Sim, nós temos um gráfico de ações! Estamos em terras brasileiras, temos futebol por perto, temos torcidas enlouquecidas e muitas vezes xenófobas. Estamos diante do maior império teatral da cidade, o prédio do Centro Cultural Teatro Guaíra, que a tudo acompanha em silêncio sem nada poder oferecer; pedimos autorização para utilização do espaço para filmagens e parte das ações, que nos foi negada: trata-se, agora, de apenas um lindo teatro antigo e mal cuidado, outrora glamouroso, transformado em edifício de funcionarismo público contemporâneo. Na manhã da quinta-feira 9/06, rumamos todos para uma ação inusitada no Grande Auditório do Teatro Positivo, lugar gracioso, belo e meticulosamente construído para uma grandiosa cena teatral à grega. A equipe gerenciadora deste teatro — privado, vale lembrar — nos autorizou de imediato a utilização de seus espaços internos para a filmagem do vídeo pré-gravado componente do roteiro de PORNOSUSPENSE. Um palco, uma plateia dócil e inexistente, cortinados e veludos apropriados, um tango e uma punhetinha furtiva. Lá fora o frio racha as peles polacas da região. À tarde todos fazemos entrada nos quartos do hotel onde o grupo está hospedado, local de parte de nossas ações programadas para o dia seguinte. Temos contato com a exorbitante quantidade de fiações por onde obteremos energia para o funcionamento de nossa tecnologia, ainda não inteiramente dominada. Também recebemos mais instruções para o funcionamento dos nossos corpos dentro dessas ações, nossos corpos, porém, são de uma tecnologia um pouco mais dominada, talvez porque nos seja inerente, mas só talvez. Nossos roteiros trazem informações como “a verdade está do outro lado”, “o que está longe pode vir a ficar perto”, Cicciolina, pizza, flâmula italiana, áudios do Google Tradutor, cenas de banheiro, dança, higiene pessoal, público dentro de um dos quartos, gente dormindo, camareiras, projeção de imagens íntimas através da janela de outro dos quartos, pratos com leite, bondage, masturbações (intelectuais e físicas), boneca inflável na marquise, atrito físico, denúncias de vandalismo, invasões calculadas, fumaça espetaculosa, Humphrey Bogart, James Dean e, claro, um belo e acintoso salsichão local. Câmeras, computadores e sites de relacionamento social na internet mediam tudo, a tudo olham e a tudo gravam, parodiam tudo, extrapolam tudo e a tudo contem. O PORNOSUSPENSE, realizado com uma hora de atraso (a tecnologia humana também falha), às 19 horas da sexta-feira 10/06, aliviou nossa tensão. Tivemos, com ele, um meio de pôr para fora o tesão grupal recolhido, na primeira ação artística inédita e conjunta realizada entre ERRO Grupo e Companhia Silenciosa depois de oito anos de namoro e rusgas à distância. A gozada foi boa, porém.

No meio dia do sábado 11/06 seguinte, nós nos encontramos relaxados, participativos e opinativos para uma conversa muito esclarecedora dos rumos em questão nesse nosso intercâmbio sulista. Surgiram-nos questões chave como: teatro, performance art, teatro dramático e teatro pós-dramático, lugar de onde se vê, lugar de onde não se vê, reação física ativa do espectador, espetáculo, arte diluída no cotidiano, visibilidade X invisibilidade como posicionamento político, características das funções próprias dos atores, características das funções próprias dos performers, características das funções próprias dos atores/performers, características das funções próprias dos diretores, características das funções próprias dos produtores culturais, características das funções próprias da equipe técnica, características das funções próprias de quem mistura todas as funções anteriores, semelhanças e diferenças no funcionamento interno de ambos os coletivos, machismo, feminismo, sexismo, heterossexismo, gêneros (biológicos e artísticos), sexualidade, delimitação de fronteiras entre linguagens e a subsequente desaparição dessas delimitações fronteiriças. Nosso SalsichãoTainha está crescendo a olhos vistos!

Às 15 horas do mesmo sábado, o ERRO Grupo realizou uma explanação para a comunidade local interessada sobre os temas e as articulações artísticas trabalhados no coletivo desde seu surgimento até seu momento atual. A conversa, de caráter informal, contou ainda com a apresentação de vídeos (demonstração de trabalho) e distribuição de programas de ações artísticas anteriores e mostras dos modos de produção com os quais o grupo trabalha e se relaciona. A Companhia Silenciosa está silenciosa, absorvente, e se prepara para sua próxima passagem pela capital do Estado de Santa Catarina no final da segunda metade do mês de julho próximo, quando realizará seu quinhão das ações artísticas previstas por este projeto. De minha parte (aqui anônima e subversiva) posso dizer que já estamos sentindo falta dessas coisas de que, em tão pouco tempo, somos capazes juntos. Quem viver verá!

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