Tag Archives: feminismo

Political Woman

1 jul
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confessions

24 jun

Faziam-nos dormir de dois a dois, pés com cabeça, em caminhas. Eu me via sempre obrigada a dividir minha cama com aquele retardado do Jenö, o filho do padeiro e nosso vizinho de andar. Parecia um autêntico leitãozinho, limpo e rosado, com uma cabeçorra redonda e cheia de espinhas. Cheirava a levedura, e suas calças eram remendadas na bunda com pedaços de todas as cores. O garoto não dormia, virava-se de um lado para o outro e só dizia imbecilidades, blasfemando enraivecido. Eu não podia pregar o olho. Então, eu tirava a calcinha, segurava sua cabeça com as duas mãos e o forçava a encostar sua boca em minha xereca, minha cicciolina. Às gargalhadas eu dizia: “Cala a boca, imbecil, e sopra.”

E ele soprava. Depois parava, levantava sua cabeça vermelha e choramingava:

– Não aguento mais soprar! Está abafado e com cheiro de xixi.

– Xixi? Imbecil. Cala a boca e sopra…

Esse joguinho me agradava muito. Sentia coisas gostosas e tinha vontade de fazer xixi. Então eu fazia uma cara zangada e dava uns socos na cabeça dele para obrigá-lo a continuar. E ele recomeçava a soprar na minha cicciolina de garota. Eu tinha cinco anos.

Um dia, a professora nos pegou em meio a uma briga e substituiu o garoto por Ildiko, a filha do açougueiro, uma gordinha com tranças que cheiravam a manteiga e chucrute. Logo pedi-lhe que soprasse na minha fendinha, mas a garota, danada, enfiou a língua. Ela acariciava minha barriga e me pedia que fizesse o mesmo. Um dia, aquela sacaninha trouxe para a escola um salsichão que escondera na merendeira. Ela me ofereceu um pedaço. Peguei o salsichão pela ponta e o enfiei todinho na sua cicciolina. Ela desandou a berrar como um porco capado. Depois das chineladas e da bronca da professora, fui expulsa da escola.

Em casa, apanhei de novo e fui mandada para a cama sem jantar. Nossos jogos de criança, embora um pouco audaciosos, eram ainda inocentes. Não passavam de brincadeiras de crianças sabidas, estripulias de infância que me deixam boas lembranças.

No entanto, tantas sensações, tantos acontecimentos se apagaram de minha memória! Coisas bonitas ou tristes, lembranças que procuro reconstituir, arrumar ao meu jeito, enriquecer, encontrar-lhes uma continuação. Quando um detalhe isolado ressurge de improviso, tudo se torna então mais verdadeiro do que o real, e me sinto inundada de alegria.

 

 

CICCIOLINA. Confessions. Trad. P. C. Xavier. Rio de Janeiro: Record, 1987. Pg. 16 e 17.

 

Quem Acontece

28 mar

Otaviano Costa se vestirá de mulher para interpretar um machão em “Morde & Assopra”, próxima novela das 19h da Globo.

Nas imagens divulgadas pela emissora, o ator aparece caracterizado como Elaine. Como deve pensão a três ex-mulheres, Élcio, o personagem de Otaviano, precisará se vestir de mulher para fugir da polícia.

Para conseguir o resultado da foto acima, Otaviano chega aos estúdios cerca de uma hora antes do habitual. “Cílios [postiços] são grandes inimigos. A cola deixa remela no olho”, brincou o ator em entrevista publicada pelo jornal “Folha de S. Paulo” neste domingo (13).

Animal Humano e Máquina: Qual presença persevera?

12 mar

Ora, se para Miss Haraway “um ciborgue é um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção. Realidade social significa relações sociais vividas, significa nossa construção política mais importante, significa uma ficção capaz de mudar o mundo. Os movimentos internacionais de mulheres tem construído aquilo que se pode chamar de “experiência das mulheres”. Essa experiência é tanto uma ficção quanto um fato do tipo mais crucial, mais político. A libertação depende da construção da cons­ciência da opressão, depende de sua imaginativa apreensão e, portanto, da consciência e da apreensão da possibilidade. O ciborgue é uma matéria de ficção e também de experiência vivida ‑ uma experiência que muda aquilo que conta como experiência feminina no final do século XX. Trata‑se de uma luta de vida e morte, mas a fronteira entre a ficção científica e a realidade social é uma ilusão ótica”, não será mero salsichão – entreposto masculino para a gastronomia turística do lírico devir – a suplantar a presença da tainha e de demais peixes do sul imbuídos  de carga dramática feminina, mas, por outro lado, o que é o feminino se não pura mediação da presença? Masculina, a presença? Universal? Universalizante? Quem engloba o discurso? De onde e a qual tempo se refere? A máquina é masculina? A terra, adubável e revirável, o feminino perdido nas fiações desaparecidas de um qualquer sistema wireless? Ainda não havíamos falado do feminino aqui. Pois a hora é chegada, e irreversível. Nossa tecnologia ultrapassa o fornecimento específico de buracos de diversos tamanhos onde algumas ideias são plugadas e reprocessadas, como criaturas do mundo pós-gênero que somos. Ciborgues porque toda natureza é a um só tempo enfadonha e artificial, e nós amamos a naturalidade das coisas com nosso teatro urbano e social.

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