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A Presença Mediada e o Seminar Pornosuspense

12 set

A Presença Mediada e o Seminar Pornosuspense[1]

Juarez Nunes[2] (ERRO Grupo)

Palavras-chave: Presença Mediada, Jogo, Arte Publica.

Resumo: O presente trabalho aponta algumas reflexões em torno da presença mediada a partir do trabalho Seminar Pornosuspense realizado pelo ERRO Grupo para a Semana Rumos Teatro do Itaú Cultural. A abordagem aqui utilizada não é via a oposição entre virtual e real e tão pouco através de uma imersão na cibercultura. Parte-se aqui do que seja o teatro em sua essência e a partir daí verificar as implicações da presença mediada e sua produção da imagem fílmica nesta arte que desde sua origem é vista como um acontecimento presencial ao vivo, em tempo real, entre fazedores e observadores.

A abordagem sobre a presença mediada se dá num contexto histórico onde a humanidade “passa por um verdadeiro choque do futuro resultante de avanços das ciências físicas, biológicas” (Santaella 2010). Como é do conhecimento comum vive-se um expansivo desenvolvimento da informática, das telecomunicações, da biotecnologia, da robótica, da nanotecnologia, da neurociência; desmanchando-se no ar qualquer certeza que se possa ter sobre as coisas, causando, ainda de acordo com Santaella, uma revolução nas identidades, gêneros e principalmente sobre a antropologia no que se diz respeito à distinção entre cultura e natureza.

Estando a arte assim como a vida imersa neste contexto, isto permite ao teatro contemporâneo que se contamine por esta realidade ao ponto de se afirmar que:

“… o teatro faz parte das mídias. Ele constitui mesmo uma mídia por excelência e seus componentes mais frequentes são eles também constituídos por diversas mídias” (Pavis, 2010: 173).

Pavis entende por mídia todo sistema de comunicação que permite a sociedade realizar toda uma parte das três funções essenciais da conservação da comunicação: a distancia de mensagens, conhecimentos e a ritualização de práticas culturais e políticas. No teatro, o estudioso francês, deixa claro que esse fenômeno se dá no espaço-tempo através da representação que passa necessariamente pelo corpo do ator, o próprio espaço-tempo e a recepção. Com isso, portanto não se deve estranhar o alinhamento do teatro a outras mídias, entre elas as que possibilitam a presença mediada.

Seja o teatro ou não a constituição de uma mídia como afirma o estudioso francês, e caso se faça a opção pelo seu alinhamento às mídias que possibilitem a imersão deste na presença mediada é preciso se perguntar se a mediação da presença não subtrai do teatro um pouco de seu caráter humano, afinal desde suas origens o que sempre o caracterizou foi o fato de irmos ao teatro para se presenciar a atuação de atores e atrizes ao vivo em tempo real. Sendo o teatro uma arte que se realiza na dualidade do fazer-olhar; manifestação que ocorre no momento em que alguém (ator) faz e alguém (espectador) assiste; pergunta-se: a presença mediada, por mídias eletrônicas, não amplia a exploração deste contato? O ERRO Grupo acredita que sim e por isso através de Seminar Pornosuspense explora as possibilidades praticas do fazer cênico advindo da investigação em torno da presença mediada partindo da pergunta:

Se como afirma Guenoun (2004) o teatro “não é uma atividade, mas duas; a atividade de fazer e a atividade de ver”, uma articulação dos atos de produzir e do ato de ver; em que a presença mediada por dispositivos eletrônicos pode contribuir para o desenvolvimento destas duas atividades?

É nesse contexto de grandes inovações e questionamentos que se desenvolveu a investigação que resultou em Seminar Pornosuspense  e o objetivo deste artigo não é apresentar respostas para uma questão tão densa, mas alimentar o debate com observações a partir do próprio Seminar Pornosuspense.

O ERRO, que apresentou na Semana Rumos Teatro no Instituto Itaú Cultural no dia 28/08/11 em São Paulo, o seminário performático Seminar Pornosuspense, é um grupo de teatro do sul do país (Florianópolis) que atua a partir do deslocamento e da invasão urbana, através de espetáculos teatrais de rua, performances e intervenções. É um coletivo inserido no universo da arte publica, entenda-se arte publica a partir de Jaques Ranciére (2010) que a define como aquela que se inscreve na paisagem da cidade e da vida em comum para sua fruição, distinta da arte que se vê em museus, teatros e espaços institucionalizados.

Buscando frestas neste contexto o ERRO através de Seminar Pornosuspense intervém no prédio do Instituto Itaú Cultural, visando causar estranhamento a partir de um tema que nos é muito caro que é a sexualidade a partir da pornografia colocada em suspense.

O fato é que a resultante das cartografias efetuadas em Florianópolis, Curitiba e São Paulo, encontros e desencontros culturais entre errantes e silenciosos apresentou, como um dos denominadores comuns, o sexo. Como se sabe a visão purista abriga algumas praticas sexuais mercantis no termo pornô, ou às vezes as escamoteia para o erótico o que tem levado à criação de inúmeras feiras como a Feira erótica de Macau e tantas outras que pululam pelo mundo.  O Seminar Pornosuspense que o ERRO levou a São Paulo caracteriza-se por lembrar que a arte não é política pela mensagem que transmite e tão pouco pela maneira como representa as estruturas sociais, os conflitos políticos ou as identidades sociais, étnicas ou sexuais. Como atesta Ranciére, a arte é política pela forma como configura um sensorium espaço-temporal, enquanto recorta um determinado espaço tempo.

No caso de Seminar Pornosuspense, sua configuração se dá pela multiplicidade de ações simultâneas em diversos espaços, condensadas pela presença mediada. Esta determinação condiciona sua movimentação, partituras e a corporeidade dos atores.

O que se pode afirmar sobre a presença cênica mediada em Seminar Pornosuspense?

Assim como na vida as mídias no teatro fundem os espaços ao compartilharem experiências através da simultaneidade alterando as formas de ser do sujeito. Ao aproximar as pessoas neste contexto de mudanças da forma do ser do sujeito, a presença mediada em Seminar Pornosuspense e no teatro de uma maneira em geral assim como na vida; permite a interação do que antes era impossível. Assim, no cotidiano, até o sexo se virtualiza, o que Seminar Pornosuspense ironiza. O fato é que o ERRO deseja aniquilar as dimensões espaciais possibilitando que por este meio o espectador possa apreender signos e interpretações e com isso possa a produzir significados.

Conceito amplamente difundido, a presença mediada, se configura no contexto das interações “não diretas” e por isso é problematizada no teatro, já que esta é uma linguagem artística que se desenvolve como já se mencionou acima, via presencial, ao vivo.

Esta arte ao vivo, o teatro, se efetiva através do jogo, que é estabelecido entre fazedores e receptores na cumplicidade de que algumas vezes se presencia e se vivencia a ilusão seja em sua forma naturalista ou não e em outras a tentativa da quebra desta ilusão seja na forma épica ou não. Sem querer fazer menção sobre o virtual em oposição ao real ou ao atual, aqui se atém ao fato de que a presença em Seminar Pornosuspense visa ser real, atual e virtual[3] dado que se apresenta enquanto potencia.  Em Seminar Pornosuspense as imagens mediadas que chegam ao receptor serão geradas no exato momento em que se presenciar o seu acontecimento, não serão imagens pré-gravadas, portanto serão ao vivo tanto quanto às imagens metafóricas produzidas pelos performers que atuarão no espaço onde se encontra o público.

Entenda-se como jogo, aqui, o conceito dado por Johan Huizinga (2002) que considera o jogo como uma evasão da vida cotidiana (real) para uma dimensão temporária de atividade com orientação própria, onde seus participantes integram um evento livremente criando uma limitação espacial e regras próprias para o seu desenvolvimento como é o caso do Seminar Pornosuspense que ocupa diversos espaços centralizando suas ações no prédio do Itaú Cultural, onde a presença é mediada por dispositivos eletrônicos tendo como regra para a participação a simples disponibilidade do permitir-se viver uma experiência, um acontecimento, uma performance ou uma intervenção que dura em torno de trinta e cinco minutos.

Em Seminar Pornosuspense o jogo que se estabelece através de dupla presença: a presença ao vivo em tempo real e a mediada que se entende aqui pode provocar uma espécie de identificação semelhante à que ocorre no cinema. Esta identificação[4] é um dos aspectos a se apontar na exploração da presença mediada no teatro. Consoante Guenoun, alguns autores denominam esta identificação como “dupla identificação cinematográfica” designando-as como: primária e secundária. A identificação cinematográfica primária é a que se estabelece pela investidura do olhar, fenômeno que se estabelece pelo ponto de vista do qual se realiza a filmagem, levando quem assiste a identificar o seu olhar com o da movimentação da câmera. Este efeito é produzido também na televisão e em toda representação onde a imagem fornecida é a fílmica. A identificação cinematográfica secundária é aquela que se manifesta através da identificação do receptor com as personagens representadas. No caso de Seminar Pornosuspense, a identificação primária a das personagens é problematizada através do estranhamento, da exploração do real onde as ações provocam constrangimentos, pois se dão na esfera dos tabus sexuais e no fato de que a própria personagem é posta em questão, já que os performers se apresentam como eles mesmos. Seminar Pornosuspense assim como outros trabalhos na dimensão do teatro que investigam a presença mediada produzem igualmente como o cinema essa dupla identificação, pois suas imagens são fílmicas.

O advento do cinema concretizando a existência das imagens[5] captou do teatro seu imaginário levando com ele seu efeito de identificação. No teatro se mostra a concretude material cênica: cenário, homens, pano, sons, colocados ao publico como “imagens” analogicamente, através de metáforas, pois dizer que um ator é uma imagem só se torna exato enquanto metáfora. Já as imagens fílmicas são efetivamente imagens; no cinema a constituição do imaginário não se dá apenas pelas imagens, na dimensão cinematográfica o imaginário é o campo da concreção da imaginação, onde a imaginação é a faculdade de apresentação ou de combinação de elementos, produtos dos sentidos e, portanto, uma combinação não realista de elementos reais. A exploração da presença mediada proporciona ao publico a imagem fílmica assim se efetua na recepção efeitos semelhantes ao do cinema.

Para Guenoun (2004), o cinema libertou o imaginário do espaço mental onde ele supostamente estava confinado para lhe dar o estatuto de ente objetivo. Ao que parece Seminar Pornosuspense e todo teatro que investiga a presença mediada como procedimento de trabalho reivindica de volta o imaginário que lhe fora confiscado ao final do século XIX quando surge o cinema.

O aparecimento do cinema proporcionou a condensação, a concreção na materialidade, à idealidade e à sensitividade do imaginário cuja conjunção fora até então privilégio da imaginação mental.

Ele (o cinema) apresenta o produto desta concreção sob a forma efetiva de imagens. Não mais imagens por metáforas como sãos as “imagens” mentais. Mas imagens concretas existentes sob o modo da exterioridade. O cinema é o tornar-se imagem do imaginário. Ele é a sua literalização, sua efetuação, sua realização. É por isto, provavelmente que o termo imaginário, como substantivo é seu contemporâneo. (Genoun, 2004: 109)

O fato é que a explosão de dispositivos eletrônicos de capitação e transmissão de imagens, no cotidiano das pessoas, retira não só do cinema, mas também da televisão este privilégio, descrito por Guenoun. Hoje é possível captar e emitir imagens em tempo real de um celular e observar como o cinema avança para deixar, em pouco tempo, obsoleto o cinema 3D e talvez materializar o cinema descrito em Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley[6], onde a presença mediada ultrapassa a visão e a audição se efetuando através de outros sentidos: olfato, tato e paladar.

Ao adentrar no solo da presença mediada através de Seminar Pornosuspense, o ERRO Grupo engrossa as fileiras daqueles que percebem que a busca de uma encenação que reatualize a arte e vida, devem passar necessariamente pela consideração do impacto que as mídias eletrônicas trazem para a vida humana. Contudo, o grupo já havia pesquisado esse contexto para a realização dos trabalhos Enfim um Líder (2007) e Escaparate (2008).

Através da dispersão espacial e simultaneidade Seminar Pornosuspense visa provocar no receptor a atividade motora, já que este tem como regra para sua integração no jogo a obrigatoriedade do deslocamento através do caminhar, contrariando o cinema e o teatro de sala italiana que reduzem a atividade motora do espectador através do ver e ouvir imobilizando-o numa cadeira, ao mesmo tempo em que recorta sua visão no palco e na tela; causando um superinvestimento do seu olhar em detrimento do acionamento de seus outros sentidos. Na ocupação do prédio do Instituto Itaú Cultural, Seminar Pornosuspense estimula no publico além do deslocamento do olhar e do corpo, mas da audição, do olfato e do tato através da interação que se desenvolve entre estes e os performers participantes ativando o jogo e suas consequências.

A presença mediada em Seminar Pornosuspense, como consequência do jogo estabelecido buscará tencionar o espetáculo ao vivo proporcionando uma concorrência, conforme Pavis (2004), entre a imagem fílmica e os corpos dos performers, onde o espectador não escolhe necessariamente o vivo contra o inanimado. Neste tipo de concorrência o olho é atraído por aquilo que é visível em maior escala e retém sua atenção em mudanças de planos, porém esta observação em Seminar Pornosuspense é relativizada dado que a concorrência entre imagem fílmica e o corpo ao vivo do ator se estabelece por algo que chama a atenção tanto quanto as escalas e mudanças de planos da imagem fílmica que são: o nu e as ações dos performers que se efetuam entre o bizarro, o absurdo e o pornográfico. Isso proporciona certa simetria, sem que as atenções se voltem exclusivamente para imagem fílmica.

A concorrência entre o ao vivo e a presença mediada em Seminar Pornosuspense problematiza o ao vivo onde a temporalidade da ação põe em cheque a proposição relativa à subtração, por meio da presença mediada, do caráter humano que a presença ao vivo confere ao teatro. Se as ações que são transmitidas, simultaneamente, do percurso pelas ruas desde um banheiro de um shopping até o próprio prédio do Instituto e do espaço onde performers atuam na presença do publico até o quarto de um hotel, ocorrem em tempo real, no exato instante que as ações ao vivo que o publico presencia, apesar de estar em espaços distintos, esta mediação das mídias não subtrai o caráter humano do acontecimento e sim o amplifica, pois na era da virtualidade a presença não mais se liga ao corpo. Pode-se falar ao telefone de Florianópolis com uma pessoa em Curitiba ou em Salvador estando presente, live, em uma presença que se realiza na ausência dado que ao falar de Florianópolis com alguém de Curitiba se esta efetivamente na capital catarinense e não na paranaense. Subtraiu-se da presença um pouco de sua materialidade e com isso se possibilitou o estar em diversos lugares em um mesmo espaço de tempo falando com enes pessoas como ocorre em conferências virtuais.

Ainda que a presença não esteja mais ligada ao corpo fica a pergunta: o que é mais excitante ver um filme pornô em 3D ou o encontro de um corpo perante outro?

O ao vivo mediado, há muito tempo, permeia as nossas vidas cotidianas, do pronunciamento presidencial em cadeia nacional ao evento da derrubada das torres gêmeas, observa-se a expansão das possiblidades de desenvolvimento da sociedade do espetáculo.

Conforme a acepção aristotélica, o teatro é a única arte que se dá via corpo e voz do ser humano para produzir uma ficção e imitar ações humanas e por esta acepção a presença mediada no teatro gera tensão causando duvidas sobre se, o que se presencia, é teatro ou não.

É difícil e complexo avaliar a influencia cinestésica do corpo, não se sabe ao certo em que o efeito da presença do corpo do ator se diferencia de uma imagem fílmica ou mental. O que Seminar Pornosuspense aponta é se a presença mediada no teatro não pode ser explorada enquanto uma extensão, que multiplique as possibilidades da presença, atuando no sentido de desdobrar as possibilidades da ação cênica.

Aponta-se que o grande desafio da ação teatral ao vivo emergiu a partir dos anos 80 onde a presença do espetáculo ao vivo passou a ter consequências sobre a recepção veiculada por mídias audiovisuais, que alterou a escala de imagens causando desorientação espacial e corporal em quem as vê.

Em Seminar Pornosuspense a desorientação é realçada com a produção sonora, se o publico já tem como foco de atenção as imagens corporais dos performers ao vivo em concorrência com a presença mediada de outras duas ações emitidas de um hotel e do percurso pelas ruas entre o shopping e o próprio prédio do Instituto, o publico também se defronta com uma sala sonora a qual, também, divide sua atenção. Dessa forma em Seminar Pornosuspense observa-se o emergir de três tipos de imagens: a imagem fílmica, a mental do espectador que elabora sentidos a partir de sua leitura de imagens e dos estímulos sonoros, olfativos e táteis que recebe e a imagem viva dos performers que exala cheiro, textura, cor e olhar. Seminar Pornosuspense remete quem o vivencia a uma experiência para fora da esfera da passividade, ser mero observador não lhe é permitido. Isto porque Seminar Pornosuspense, ao se apropriar da imersão no real através de mídias eletrônicas para criar fissuras na representação, permite que a realidade exterior ao teatro ganhe novos contornos visto que se vivencia um acontecimento, como faziam os happenings e a performance-art a partir da década de 50 e 60. O que importa em Seminar Pornosuspense é o acontecimento, a intervenção, muito mais do que o ato teatral em si, pois de acordo com Lehmann (2007) o foco está no “imediatismo da experiência compartilhada entre artistas e público”. O absurdo, o bizarro e a exploração do pornográfico em Seminar Pornosuspense, através da abertura de fissuras por meio da presença mediada contribuem para o rompimento do aspecto ficcional que se possa querer imputar-lhe esvaziando lhe qualquer caráter teatral, reforçando seu aspecto de acontecimento. Enquanto acontecimento, Seminar Pornosuspense objetiva que o clássico personagem sucumba, o que se deve presenciar é o performer representando ele mesmo seja por mediação ou não, caracterizando-se outra fissura na representação e problematizando a aparência da vida humana na Sociedade do Espetáculo, tal como descrita por Guy Debord.

Partindo da conceituação dada por Guy Debord a cerca da Sociedade do Espetáculo, o ERRO em Seminar Pornosuspense tenta retomar um problema da filosofia que é acerca da aparência e da essência, do real e do ilusório. Entretanto, se na conceituação de Debord, conforme Luiz Fernando Ramos, a palavra espetáculo não se associa ao fenômeno do teatro, abdicando-se de “qualquer caráter metafórico” de algum sistema de representação de mundo, sendo o próprio mundo, uma qualidade ontológica deste mundo, aproximando o espetáculo das teses de Marx; o Erro Grupo partindo desta análise da realidade busca criar fissuras no real através da utilização da presença mediada com intuito de causar estranhamento no cotidiano da rua, de lugares ou de não-lugares, como o prédio do Instituto Itaú Cultural, para problematizar o que se pode chamar de Sociedade do Espetáculo. Assim, se em Debord, conforme Ramos, há um alinhamento a um conceito de antiteatralidade[7] que o associa ao Estado Ideal de Platão, que condena e ataca a representação artística considerando-a ilusória e irreal; o posicionamento no acontecimento de Seminar Pornosuspense através da exploração da presença mediada visa problematizar o espetáculo do teatro e por em cheque a espetacularização da vida. Dessa forma partindo do conceito de Sociedade do Espetáculo de Debord, Seminar Pornosuspense cria fissuras para a transgressão no real e problematiza a questão da presença no teatro.

Das primeiras experiências com mídias audiovisuais que de acordo com Pavis (2010), foram realizadas por Meyerhold (1923) e Piscator (1924) passando pelos desafios lançados ao espetáculo teatral ao vivo nos anos 80, tal como visto aqui, passando pela utilização da internet como forma de comunicação com o publico sem a presença do ator; é possível observar que na exploração de artefatos midiáticos eletrônicos no fazer teatral há uma tradição crítica e política. A utilização de novas tecnologias em Seminar Pornosuspense, assim como no teatro contemporâneo problematiza não só o conceito de presença, mas também a concepção que se tem de teatro e, sobretudo a que se tem de mundo e a relação que se possa fazer entre arte e vida proporcionando o encontro de frestas na sociedade do espetáculo que proporcionem a transgressão.

CONCLUSÃO

Seminar Pornosuspense parece nos remeter a ao que se chama Representação Emancipada que é uma relativa independência das fontes de enunciação do teatro, provocando no espectador um combate pela dispersão de seus sentidos permitindo que este se torne um juiz. No caso de Seminar Pornosuspense ele é juiz de si mesmo, ele é quem faz os nexos necessários para compreensão das ações, que não lhe são dados linearmente e é através da cumplicidade instalada no jogo, do poder permitir-se a viver o acontecimento ou manter-se como mero voyeur, como velha âncora de um teatro que jaz morto há séculos e que o espectador pode superar o estiolamento provocado pela passividade que lhe imputa as mídias eletrônicas em seu cotidiano. Seminar Pornosuspense através da imersão via presença mediada, visando criar frestas na representação espetacular cotidiana atua na esfera do paratáxico. A problematização da representação do eu no cotidiano assim como a transgressão da aparência via movimentação entre real e ficcional só é possível através de uma forma de pensar que transborde o racionalismo cartesiano existente na via do hipotáxico e este pensar viver se encontra na esfera do paratáxico, tal como se procede no pensamento mítico, onde não se pensa os mitos, mas se vive.

Se a presença mediada é um problema ao teatro subtraindo-lhe um pouco de sua característica humana através da imagem fantasmática fílmica e se a tecnologia avança cada vez mais para diminuir as interações diretas entre os humanos então se dá passos largos pelo velar de um cadáver que é a presença do ator através de seu corpo. A presença através do corpo do ator está se tornando obsoleta?

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERNANDES, Silvia.  Teatralidades Contemporâneas – Texto e Imagem Estudos de Teatro – Org. Maria Helena Werneck, Maria João Brilhante – p 9 a 28, Rio de Janeiro, 7 Letras, 2009.

GUENOUN, Denis. O Teatro é Necessário? – Tradução Fátima Saad – São Paulo, Perspectiva, 2004.

GUINSBURG, J. e FERNANDES, S. O Pós-dramático: um conceito operativo? – São Paulo: Perspectiva, 2008.

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. São Paulo: Perspectiva, 2000.

LEHMANN, Hans Dies. Teatro Pós-Dramático. São Paulo: Cosac Naify, 2007

PAVIS, Patrice. A Encenação Contemporânea: Origens, Tendências, Perspectivas. Tradução Nanci Fernandes – Sá Paulo: Perspectiva, 2010

RANCIÈRE, Jacques. Politica da Arte. Urdimento, Florianópolis, n° 15 pp 45 – 59, outubro/2010.

SANTAELA, Lucia. O Papel das Artes no Pós-Humano – Sistemas Complexos, Naturais e Mistos – Org. Suzeti Ventureli – p 317 a 321.

Anais do 9° Encontro Internacional de Arte e Tecnologia (#9ART) Instituto de Artes da Universidade de Brasília Programa de Pós-Graduação em Arte. Brasília, 2010. – p 317 a 321.


[1] Resultado do projeto Salsichão no Boquerão / Tainha na Prainha realizado através do programa Rumos Teatro do Itaú Cultural.

[2] Ator-performer do ERRO Grupo e professor de teatro da rede municipal de Florianópolis atuando na Ong. SEEDE, no Morro do Bairro Monte Verde.

[3]Pierre Lévy, em O que é o virtual?, esclarece que o virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual. Contrariamente ao possível, estático e já constituído, o virtual é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: a atualização.

[4] Guenoun aborda, em O teatro é necessário?, a identificação no teatro a partir de Aristóteles passando por Diderot e Freud, bem como das implicações da produção da imagem fílmica.

[5] Guenoun também fala sobre as imagens no cinema e no teatro bem como uma aborda o imaginário a partir da imaginação em Sartre.

[6] Aldous Leonard Huxley, 26/07/1894 – 22/11/1963, foi um entusiasta do uso responsável do LSD como catalisador dos processos mentais do indivíduo, em busca do ápice da condição humana e de maior desenvoltura de suas potencialidades.  Admirável Mundo Novo (Brave New World na versão original em língua inglesa) foi publicado em 1932 narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade criada por Huxley neste romance, não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo de soma da droga sem efeitos colaterais aparentes. Neste mundo as crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos da vida e o conceito de família também inexiste.

[7] O conceito de antiteatralidade e os conceitos de teatralidade denegada e teatralidade da convecção são apresentados por Silvia Fernandes no livro Textos e Imagens Estudos de Teatro.

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la piel que habitaré

24 ago

 

 

 

 

 

El Gran Cabaret Porno in loco…

15 ago

“O espetáculo não é necessariamente um produto do desenvolvimento técnico do ponto de vista natural. A sociedade do espetáculo é, pelo contrário, uma formulação que escolhe o seu próprio conteúdo técnico. Que a libertinagem mais excessiva, mais renovada e crapulosa, longe de atemorizar-te, torne-se a base de tuas ocupações mais deleitosas: uma gravidez trai, estraga a cintura, não é boa sob nenhuma circunstância e por isso foder-se pelo cu é duplamente melhor.”

Guy Debord + Marquês de Sade

* Photo by Alessandra Haro

Lambe-lambe Action!

1 ago

As ações silenciosas para o SalsichãoTainha em Florianópolis, ocorridas entre 25 e 26 de julho e intituladas de El Gran Cabaret Porno contaram com a colagem de diversas imagens de cunho erótico/político produzidas pelos três integrantes da Companhia Silenciosa (em parceria com Alessandra Haro, sua fotógrafa oficial de quase uma década), e também com a tentativa de uma webtransmissão em tempo real para bate-papo sobre os modos de produção artística da Companhia, presença, cena e arte multimídia, tentativa essa que se mostrou falha devido a problemas com a recepção dos dados por parte dos participantes do chat, que ficaram impossibilitados de ver e ouvir as imagens enviadas direto do Restaurante Barracuda, na Lagoa da Conceição. El Gran Cabaret Porno simboliza a etapa atual em que se encontra o SalsichãoTainha para a Silenciosa, já imerso na temática do erotismo e da pornografia como vetores políticos inquestionáveis de possibilidade de expansão da presença cênica, atravessando mídias como o lambe-lambe e os sticks (adesivos de paredes), modalidade de arte de rua contemporânea que consiste em low-tech de impressão e colagem de material artístico em espaços públicos urbanos, no caso os cartografados na primeira viagem da Companhia para a ilha de Florianópolis em fevereiro deste ano.

Influenciados pela segunda passagem do ERRO Grupo por Curitiba em junho último — com seu PORNOSUSPENSE — os integrantes da Silenciosa decidiram produzir imagens fixas e intercambiantes a serem dissipadas, engolidas e antropofagizadas em pixels famintos pela capital catarinense na madrugada da segunda-feira 25 para terça-feira 26, capital essa obrigada a lidar na manhã seguinte com a sugestão sexual inexorável e silenciosa impressa em seus postes, paredes, placas, pontes, túneis, muros e vitrines. Essas ações contaram com a participação do olhar do espectador e suas subsequentes reações para que lhes fossem impressas também realidade, valor e análise social. Ações que, se não legais jurídica e/ou penalmente, são ao menos muito legais artística e politicamente: como formato de manifesto para a liberdade de expressão em tempos de repressão sexual e artística no país. El Gran Cabaret Porno investiga características e aspectos essenciais da política de opressão social, estatal e global exercida sobre os espaços urbanos de uso comum tanto quanto o uso e os fins a que se destinam as diversas sexualidades contemporâneas. Investiga também a intensa necessidade da Companhia Silenciosa de borrar os delineamentos precisos e especificistas entre os gêneros artísticos, levando a “cena teatral” para o material visual, para a intervenção urbana, para a manifestação política declarada, para a performance art, o grandiloquente intuito de conjuminar todas as possíveis mídias que estejam à mão para um grandioso evento cênico, mescla de congregação e confraternização das artes com o questionamento dos propósitos que tendem a separá-las em nichos.

 

 

* Photo by Alicia Roy

Justaposição, contaminação e junção do conflito entre espaço e presença em PORNOSUSPENSE

1 jul


Justaposição, contaminação e junção do conflito entre espaço e presença em PORNOSUSPENSE

Por Luana Raiter e Pedro Bennaton (ERRO Grupo)

PORNOSUPENSE se originou nas discussões do ERRO Grupo com o fim de ativar espaços específicos que fizeram parte da cartografia organizada pela Companhia Silenciosa, que o ERRO realizou na cidade de Curitiba, e que na visão do grupo oferecem possibilidades de intervenção para refletirmos sobre os eixos de pesquisa do projeto Salsichão no Boquerão/Tainha na Prainha, que são as noções de presença cênica e possibilidades de criação de frestas, deslocamentos e rupturas em ações urbanas.

Os espaços específicos, alvos das ações do ERRO Grupo em Curitiba através do PORNOSUSPENSE, que consistiu em duas ações distintas no dia 10/06/11, uma noturna e outra diurna, foram escolhidos não só por sua arquitetura e relevância no fluxo cotidiano da cidade, mas também por seu significado na cartografia realizada anteriormente.

A ação de PORNOSUSPENSE, realizada no período noturno, teve como base a criação de uma intervenção na rua em relação ao Teatro Guaira, que, por exemplo, representa em Curitiba a ostentação do glamour da cultura local. Como o Guaira é um espaço fiscalizado, restrito, culto, erudito, imponente e, de certa forma, impotente, durante a cartografia, o ERRO Grupo pode percorrer as entranhas deste edifício e também observar algumas das particularidades da classe teatral curitibana. Nessa parte de PORNOSUSPENSE, a proposta era utilizar o terraço do Teatro Guaira para realizarmos uma cena, mas com a proibição pela direção do Guaira para isso, foi necessária uma readequação na criação para realizarmos uma invasão no terraço com o fim de conseguirmos fazer ao menos um fragmento da cena planejada anteriormente. Ao redor deste espaço específico também fez parte da cartografia do ERRO o quarto do Hotel Dan Inn, situado na Rua Amintas de Barros, que foi o local utilizado para a estadia do grupo, e que por acaso tinha vista para o magnífico terraço do Guaira. O Hotel como o Teatro caracterizam-se por serem não-lugares (Marc Augé), impessoais, e que simultaneamente tem a função de servirem como espaço de transição e, no caso do hotel, como uma casa temporária sem identidade para quem vem de fora da cidade e quer pernoitar nela. Esses espaços de transição sem identidade, utilizados para as ações íntimas e, ou, de lazer cultural no caso do teatro, foram utilizados pelo PORNOSUSPENSE, pois na visão do ERRO a cartografia em Curitiba teve um caráter meta-teatral e espetacular.

Segundo Augé, a cidade se descortina em um mundo provisório e efêmero, comprometido com o transitório e com a solidão. Nossos espaços de convívio são a medida de uma época que se caracteriza pelo excesso factual, superabundância espacial e individualização das referências. O ERRO Grupo trabalha desde sua formação em 2001 nas ruas de Florianópolis e leva suas obras a outras ruas de outras cidades com características diferentes das que o grupo vivencia em sua cidade natal, porém entre tais cidades, inseridas em um contexto de uma sociedade espetacular (Guy Debord), o grupo identifica similaridades que o possibilita também a explorar algumas frestas já reconhecidas mesmo em espaços urbanos distintos.

Em Curitiba, PORNOSUSPENSE não poderia deixar de agir sobre as vias curitibanas de tráfego, assim como praças e esquinas. No sentido de integrar o interno e o externo, o público e o privado, a presença mediada atua para que PORNOSUSPENSE penetre nas frestas de comunicação dos espaços internos, no caso do Teatro e do Hotel, contaminado e contaminando-se com a rua, o espaço externo. Além das ruas Amintas de Barros e a Tibagi, durante a ação noturna de PORNOSUSPENSE, foi utilizado o espaço da marquise de um prédio no lado oposto do Guaira, que é um espaço feito para ser invisível, um espaço que tem como objetivo proteger outro espaço, direcionando o fluxo das pessoas e de seus olhos de forma sutil e, ainda assim, brutal.  Um espaço que protege o que é feito para ser visto e tem sobre si o que se deseja ocultar da rua como um paradoxo entre o privado e o público, o visível e o invisível que sintetiza o ambiente de PORNOSUSPENSE.

A ação de PORNOSUSPENSE, realizada no período diurno, teve como espaço específico a Praça Carlos Gomes e o ponto de ônibus (tubo) que está localizado ali e é utilizado para o transeunte chegar ao Boqueirão através do transporte coletivo Ligeirão Boqueirão. Os tubos de transporte público que existem em Curitiba são elementos arquitetônicos específicos desta cidade, eles ressaltam aos olhos alheios pela estratégia do poder público em controlar e proteger o espaço urbano, em evidenciar o seu glamour e a sua espetacularização de acordo com a sua especificidade de temperatura climática. Deste local do centro de Curitiba, a Praça Carlos Gomes, que contém em seu centro fálico uma espécie de torre romana em miniatura, um pequeno lago e uma mini-cachoeira, é possível chegar ao Boqueirão, maior bairro de Curitiba, periférico e de pouco interesse cultural e histórico, não apresentado entre o mapa turístico da cidade, como o ERRO procurou evidenciar com as ações diurnas de PORNOSUSPENSE.

As escolhas dos espaços específicos pelos integrantes do núcleo de criação do ERRO Grupo preocuparam-se em explorar em PORNOSUSPENSE as possíveis e distintas formas de presença e sua mediação durante a intervenção urbana. Os ambientes escolhidos e percorridos apresentavam desafios de arquitetura e fluxo urbanos e para enfrentarmos tais dificuldades foram criadas ações que tornassem permeáveis, através do contato entre locais internos e externos, as vias de comunicação e encontro em pontos específicos de Curitiba.

Debord afirma que a origem do espetáculo é a perda da unidade do mundo, e sua expansão gigantesca exprime a totalidade desta perda. O espetáculo é o fazer ver um mundo que já não é diretamente apreensível através de diferentes mediações especializadas que nos levam à abstração generalizada da sociedade. É o contrário do diálogo e em toda a parte onde há representação independente, o espetáculo reconstitui-se. Nos dois períodos de realização de PORNOSUSPENSE foram utilizadas formas distintas de mediação e ampliação de presença. Uma delas foi propagar a voz da atriz, e de sons do ambiente, de modo a tentar assegurar a quem está escutando, no caso o público, de que esta pessoa está presente no mesmo local, mas que não pode ser identificada pela visão (fonte sonora distante da fonte de visão).

Outra maneira de ampliar a presença dos atores durante a intervenção urbana diurna em PORNOSUSPENSE é a reprodução de um discurso nitidamente pré-gravado propagado de modo a se re-significar através da ausência do corpo no qual se origina a voz (no caso o discurso e o corpo de Cicciolina). Além dessa mediação de presença de certa forma usual, também utilizamos a transmissão ao vivo de uma situação completamente privada dentro de um quarto de hotel para o ambiente público da rua, projetando imagens em tempo real na fachada do Teatro Guaira e exibimos ao público no televisor do quarto de hotel um vídeo pré-gravado no interior de um teatro. Contudo, mesmo com as ações mediadas, PORNOSUSPENSE tem como eixos principais as ações presenciais. Como, por exemplo, as ações que fazem parte de um universo privado (como escovar os dentes, trocar de roupa e higienizar as partes íntimas) em um quarto de hotel, que conta com a presença de um público selecionado por um jogo de palitinhos realizado na rua, e, conseqüentemente as ações realizadas na Rua Amintas de Barros em meio aos carros e na Praça Carlos Gomes.

 

ESPAÇO X PRESENÇA

A 1ª experiência prática de PORNOSUSPENSE aconteceu às 12hrs do dia 10/06/2011 na Praça Carlos Gomes e no ponto (tubo) de ônibus localizado na mesma praça. A presença mediada em questão sucedeu pela propagação da voz da atriz, e de sons do ambiente. A atriz atua de forma invisível dentro do tubo, conversando com as pessoas que ali esperam o ônibus para o bairro do Boqueirão. Ela conversa sobre os aspectos culturais e históricos deste bairro, pede recomendações turísticas e antropológicas. Tudo que ela fala e seus interlocutores respondem é captado por um microfone de lapela, cuidadosamente escondido, e propagado para o restante da praça. Quem está pela praça, não identifica precisamente o local de onde estão estas vozes, no entanto vê as caixas de som propagando os ruídos do local, e pela conversa, que em determinados momentos faz referência a praça, ao tubo, aos ônibus e especialmente ao Boqueirão, é dada a situação de que a atriz está infiltrada pelo local, e de que as conversas não fazem parte de uma gravação. O papo rotineiro ali propagado, em um determinado momento, é interrompido pelo pedido da atriz para que alguém tire uma foto dela no tubo, mas com a paisagem da praça em segundo plano. Assim, as pessoas passam a ver a atriz, que contra as paredes transparentes do tubo, faz pose de turista junto à paisagem, tornando-se paisagem de si mesma.

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Nesta mesma ação foi utilizada a reprodução de um discurso nitidamente pré-gravado propagado para re-significar o próprio discurso e também a outra ação que não era pré-gravada. “A Itália é aqui”, este foi o sentimento que tivemos em nosso 1º encontro presencial, a cartografia, em Curitiba. Existe um esforço tremendo por parte de Curitiba de ressaltar suas influências culturais, eurocêntricas. Em passagem pelo bairro da Santa Felicidade fica exposto a supervalorização e a espetacularização (a qualquer custo) da cultura italiana. Encontramos, por exemplo, restaurantes que reproduzem, em sua arquitetura, os castelos medievais, que nada expressam senão o cúmulo e acúmulo da exploração capitalista sobre a história, um vazio de sentido em proporções gigantescas.

No Caminho do Vinho (outra vivência que fez parte da cartografia curitibana) fomos guiados por Rosana em um tour pelas vinícolas da região de São José dos Pinhais. Rosana falava algumas palavras em italiano, como “Buona sera, buon giorno, mi chiamo Rosana”, mas, constrangida, disse que não falava italiano. Rosana estava toda produzida com roupas típicas italianas, falava do salame do seu marido como sendo o melhor da região, falava mal dos produtores que não queriam adequar-se às imposições requerentes para obterem o selo do Caminho do Vinho, e apontava as cores da bandeira da Itália que foram pintadas em cada poste do trajeto do passeio turístico rudimentar, para valorizar a cultura italiana.

O que nos chamou a atenção nessa situação específica para expressarmos em PORNOSUSPENSE é a idéia de conservantes, da obsessão pela conservação. Conservantes esses, que ironicamente, são um dos pré-requisitos que Rosana ressalta para que as vinícolas participem do Caminho do Vinho, obtendo um selo de adequação em suas garrafas que é exatamente o atestado de que o vinho artesanal passa por um processo industrializado. É preciso conservar o vinho, conservar o salame, conservar a cultura. Mesmo que isso pressuponha passar por cima das tradições particulares da antropofagia da região, das antropofagias tradicionais das pessoas do ambiente e não por uma cultura imposta que diz que para conservar é preciso adaptar-se a regras que possibilitem que a tradição seja consumida. Esse foi o objetivo de nossa ação na Praça Carlos Gomes, expor a conservação do sexo, da conservação do falo espetacular, da conservação das aparências e de uma tradição mercadológica.

Após a propagação das conversas da atriz no tubo sobre os aspectos turísticos do Boqueirão, que resultou obviamente na recomendação de muitos dos desavisados participantes-atores a indicar um passeio pela Santa Felicidade, iniciamos a propagar um discurso de Ilona Staller, nascida Elena Anna Staller, mais conhecida como Cicciolina. Cicciolina fala em um italiano claro, sobre pornografia, política, corpo e performance, e o mais importante, refere-se aos homens como cicciolinos e as mulheres como cicciolinas, resultando na propagação incontável das palavras cicciolinos e cicciolinas pela praça. Após cerca de 10 minutos do discurso de Cicciolina, um ator entra na praça, distribui pela paisagem local 25 caixas de pizzas de diferentes pizzarias locais e estende panos com as cores da bandeira da Itália. Em cada caixa de pizza há um preservativo e uma gilete.

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A 2ª experiência prática de PORNOSUSPENSE aconteceu às 19hrs do dia 10/06/2011 na Rua Amintas de Barros, no terraço do Teatro Guaira, na marquise de um prédio em frente ao Guaira, no quarto do Hotel Dan Inn (situado ao lado do Guaira), na TV de outro quarto deste hotel, na projeção na fachada do Teatro, no telefone no quarto de hotel e na calçada. Devido aos seus diversos espaços de percurso das ações, a proposta noturna pressupôs a presença dos atores através de diversas vias. Uma das vias é a ação presencial dos atores em um quarto de hotel junto ao público de forma a criar estranhamento entre ação pública e privada. A outra é a projeção em tempo real da intimidade de um casal em um quarto filmado. A aproximação entre os atores projetados e o público presente, o público filmado através de uma webcam, da cena pré-gravada de uma masturbação em um teatro que passa na TV de um quarto de hotel onde está o público, os atores que passam por este espaço de ação, assim como também passam pela a rua, e os atores que usam o telefone, são caminhos de presença pesquisadas em PORNOSUSPENSE.

Cada ator que realizou as ações nessa parte de PORNOSUSPENSE tinha um percurso específico através dos espaços ocupados pela intervenção: hotel, rua, terraço, quarto projetado e marquise. Na rua, PORNOSUSPENSE inicia com a atriz-1 que se aproxima das pessoas que estão na esquina (no local indicado na divulgação para o inicio da ação), cumprimentando-os um a um e oferecendo a eles a oportunidade de jogar o jogo de palitinhos, com palitos de dente, no qual entre três palitos, a pessoa tem que escolher o maior. Conforme público acerta o palito maior, recebe uma carta, que de um lado se lê a frase “a verdade está do outro lado” de um lado e no verso se lê a frase “aceite o mistério” (ou vice-versa).

Simultaneamente, a atriz-2 caminha segurando um salsichão na mão no semáforo, passando entre os carros e batendo neles com o objeto, enquanto o ator-1 caminha segurando um mapa da cidade pedindo às pessoas que o ajudem a encontrar as direções para chegar ao Caminho do Vinho. Ambos tentam envolver os motoristas e os pedestres que por ali se encontram em suas ações. No alto, no Hotel Dan Inn, do outro lado da rua onde está o publico, surge uma mulher (atriz-3) em uma janela iluminada do prédio, ela está semi-nua e fala um texto de Ionesco que é propagado nos arredores, como todos os outros textos da ação, através de microfone de lapela sem fio e caixas de som instaladas na marquise. Na parede do Teatro Guaira é projetada a imagem de um homem (ator-2) deitado em uma cama de um quarto do mesmo hotel. O público que venceu o jogo dos palitos, e recebeu a carta, é convidado a entrar no hotel pela atriz-1, que agora come uma beterraba crua, enquanto os desafortunados são orientados a permanecerem ali na rua até o final.

Uma vez dentro do hotel, o público afortunado é guiado pela atriz-1 até o quarto onde antes estava a atriz-3, e é convidado a entrar e ficar à vontade. A atriz-1 abre as cortinas do quarto, mostra vista do Guaira, local onde ocorre a projeção, que agora mostra a atriz-3 entrando no quarto e relacionando-se com o ator-2 em clima de tortura e bondage. Dentro do quarto com o público, a atriz-1 se relaciona com as pessoas, explora cada detalhe do quarto (livros, as comidas deixados ali, o frigobar) ela escova os dentes e liga a televisão. Na TV é transmitida uma cena pré-gravada em um teatro da cidade, na qual o ator-1 masturba-se assistindo ao ensaio da atriz-2. A atriz-1 entra no banheiro, deixa a porta aberta, abaixa as calças, senta-se na privada e inicia a lavar a sua genitália com o chuveirinho higiênico. Após isto, ela troca uma peça de sua roupa no banheiro e sai do quarto.

Na rua, o ator-1 que estava com o mapa e a atriz-2 que estava com o salsichão, iniciam a brigar, enquanto a atriz-3 e o ator-2 continuam sendo projetados na fachada do Guaira e chamam, via telefone, alguém do público que está no quarto ao lado. Durante essas ações, a atriz-1 invade o Guaira e sobe no terraço, fala um trecho do texto O Sistema dos Objetos de Jean Baudrillard e urina ali no mesmo nível de visão do público que está no quarto de hotel. O ator-1 e a atriz-2 terminam a briga e iniciam, junto a uma música que começa a tocar no ambiente, a dançar entre os carros até entrarem no hotel e irem até o quarto do público. O ator-2 se liberta do bondage, sai do quarto e a atriz-3, semi-nua, continua sendo projetada com a sua convidada na fachada do Guaira e senta em um prato de leite localizado no criado-mudo do quarto. O ator-1 e a atriz-2 chegam ao quarto do público, ligam para o Disque-Vandalismo (153), denunciando o que estava ocorrendo na rua naquele exato momento e solicitam ao público para que saiam do quarto. Enquanto o público do quarto de hotel retorna a rua e se une ao público que permanceu na rua durante toda a ação, o ator-2 sobe em uma marquise se relaciona com uma boneca inflável que estava ali o tempo todo, joga um líquido similar a gasolina por todo o espaço e solta uma fumaça vermelha que encerra PORNOSUSPENSE.

[3]

Com esse labirinto de corpos e suas mediações tivemos latejando o suspense em experimentar essas redes complexas de comunicação e intercomunicação junto ao público. No trabalho de grupo experimentamos a imersão, prolongada, os testes, inúmeros ensaios para se chegar a algo. Em PORNOSUSPENSE nos colocamos no desafio de trabalhar com a Companhia Silenciosa, também descobrindo a sua forma de operar diante do ato de criação, produção e execução, e, além disso, lançar esta experiência aos olhos de convidados e transeuntes.

Ao chegarmos a Curitiba com um esboço de roteiro estruturado para ser colocado em ação em alguns dias, nos deparamos com a instantaneidade própria da ação presencial. PORNOSUSPENSE aconteceu, conseguimos fazer nossa ação sem a intervenção de órgãos oficiais, perigo anunciado pela Silenciosa, mas, foi claro que a ação não ocorreu como foi idealizada. Será necessário refletir mais sobre a experiência de PORNOSUSPENSE para que possamos extrair dela seus preciosos achados e descartar o que dali excede. É uma questão de tempo, trabalho, reflexão e organização.

Tivemos problemas técnicos e de falhas de produção que prejudicaram o trabalho, mas que também serviram para pensarmos os meios tecnológicos dos quais estamos discutindo no projeto Salsichão/Tainha. Os erros técnicos são previsíveis, muitas vezes fáceis de evitar, no entanto, se não há precaução, produção e solidariedade na resolução de problemas, não podemos apenas depender da sorte, da energia do momento, da improvisação para solucionarmos os desafios impostos por nossas próprias criações. A situação de teste é prioritária ao experimento e PORNOSUSPENSE é o ato de se colocar no suspense que é adentrar o desconhecido.

Foi muito importante ter feito algo prático, tornar real uma estrutura de ações discutidas, registradas e organizadas em um papel, e fazê-la ganhar corpo em tão pouco tempo enquanto cada grupo ainda não conhece profundamente os procedimentos de ação do outro, seus conceitos de atuação, produção, função e doação ao trabalho. Achamos que algumas das situações propostas pela experiência de PORNOSUSPESNSE podem render um interessante trabalho, pensado com tempo, ensaios e cautela.

A prática nos possibilita reconhecer os nossos limites de criação, execução e de nosso próprio intercâmbio. Contudo, simultaneamente, nos resta uma questão: como limitar-se diante de um projeto que se propõe a discutir a presença cênica, as relações tecnológicas e as frestas dos espaços, ou seja, que se propõe a esgarçar nossos próprios limites de ação?

PORNOSUSPENSE é uma proposta que se insere na pesquisa teórica, conceitual, e na prática questionadora dos grupos envolvidos no projeto. O trabalho foi realizado com esse intuito de expressar por parte do ERRO Grupo a nossa percepção sobre a cartografia realizada em Curitiba.

 

POSSÍVEIS PERCEPÇÕES SOBRE PORNOSUSPENSE (reflexão por Juarez Nunes)

Por no suspense!

O suspense está na antecedência da cena (ação), onde a tensão da previsão dos acontecimentos se encontra na espera da resposta dicotômica sim ou não. Superada esta fase, a ação, propriamente dita, é socializada com os participantes (espectadores); não apenas no olhar; mas na vivência, na participação ativa.

Não há foco direcionado ao olhar, o que existe é a dispersão. É preciso escolher para onde se olha: no quarto do hotel para TV, através da janela para a projeção na parede esbranquiçada do Teatro Guaíra da cena que ocorre no quarto ao lado; para cena em cima da marquise de uma loja, para a ação que ocorre na calçada do Teatro Guaira, ou para ação que ocorre no terraço deste mesmo teatro.

Para onde olhar?

A simultaneidade impera, estamos diante de um hipertexto, de uma hiper-realidade. A leitura do PORNOSUSPENSE não se dá apenas na via do hipotáxico, mas também do paratáxico. Essa multiplicidade intertextual se dilui no cotidiano através de uma teatralidade que transita entre o visível e o invisível, onde a presença se dá na esfera da normatividade causando-lhe estranhamento e a representação se esgarça como pano velho. PORNOSUSPENSE desvela a novela das oito que expõe uma atriz de sutiã e calcinha para milhões de pessoas como objeto de mercadoria.

PORNOSUSPENSE, como Cicciolina, mostra o que os moralistas escondem entre as quatro paredes pela quarta parede, e como a televisão banaliza, com seus glamorosos “gostosos e gostosas”, o sexo, tornando-o mercadoria, e o ato sexual tornando-o suspense.

REFERÊNCIAIS BIBLIOGRÁFICAS

AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução de M. L. Pereira. Campinas: Ed. Papyrus, 1994.

BAUDRILLARD, Jean. O Sistema dos Objetos. São Paulo: Perspectiva, 2008.

DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Tradução Isabel Hub e Teresa Adão. Lisboa: Afrodite, 1972.

SCHECHNER, Richard. Environmental Theater. New York: Applause Books, 1994.

SITUACIONISTA, Internacional. Antologia. Tradução de Júlio Henrique. Lisboa. Ed. Antígona, 1997.

NOTA

FICHA TÉCNICA DE PORNOSUSPENSE (apresentado no dia 10/06/11)

Concepção: ERRO Grupo

Produção: Henrique Saidel (Companhia Silenciosa), Michel Marques e Luana Raiter (ERRO Grupo)

Atuação/Performers: Henrique Saidel, Giorgia Conceição, Léo Glück (Companhia Silenciosa), Juarez Nunes e Luana Raiter (ERRO Grupo).

Técnica (projeção audiovisual, iluminação e som): Michel Marques.

Sonoplastia: Pedro Bennaton

Dramaturgia e roteiro: organização de trechos de textos de Guy Debord, Oscar Quevedo (“O que é a Parapsicologia?”), George Bataille (“História do Olho”), Marc Augé, Jean Baudrillard e Ionesco (“Ameddé ou Como livrar-se disso” por Luana Raiter e Pedro Bennaton.

Direção: Pedro Bennaton

Projeto: Salsichão no Boquerão/Tainha na Prainha – Rumos Itaú Cultural Teatro – Intercâmbio entre o ERRO Grupo e a Companhia Silenciosa.


[1] Luana Raiter em PORNOSUSPENSE na Praça Carlos Gomes, em Curitiba, no dia 10/06/11. Foto de Henrique Saidel.

[2] Praça Carlos Gomes, em Curitiba, no dia 10/06/11, após PORNOSUSPENSE. Foto de Henrique Saidel.

[3] Léo Glück e Juarez Nunes em PORNOSUSPENSE na Rua Amintas de Barros, em Curitiba, no dia 10/06/11. Foto de Pedro Bennaton.

Clique aqui para baixar o artigo: Justaposição, contaminação e junção do conflito entre espaço e presença em PORNOSUSPENSE

ANDAMENTOS ATÉ AQUI

12 jun

A experiência tirada da segunda passagem do ERRO Grupo por Curitiba para o SalsichãoTainha terá sido incrível e esclarecedora. As ações de ativação dos espaços (e possíveis mediações da presença humana através de tecnologias digitais contemporâneas de uso recorrente) cartografados em sua passagem anterior pela capital paranaense englobaram visitas a espaços teatrais oficiais da cidade, praças no centro da cidade e propostas cênicas que buscam problematizar as conexões entre espaços públicos e privados, interferências nos fluxos desses ambientes e propiciar a relação das diversas presenças sociais envolvidas e midiatizadas nesses fluxos. Em uma fria e ensolarada quarta-feira 8/06, a Companhia Silenciosa recebeu o grupo florianopolitano em dia de jogo, Coritiba (3) e Vasco (2), da primeira final da Copa do Brasil. O hotel previsto para a hospedagem (e futuramente para as ações artísticas conjuntas) do grupo estrangeiro havia sido completamente tomado por integrantes da torcida vascaína. Boquiabertos e realocados em outro hotel, dessa vez unicamente para fins sumários de hospedagem mesmo, o grupo aguarda o meio dia do dia seguinte, que é quando o hotel previsto teria seus quartos almejados livres para o ensaio e a confabulação de cúpula das ações. A Companhia Silenciosa entra em contato com o roteiro de ações proposto pelo grupo visitante, intitulado PORNOSUSPENSE. Aforismos relativistas à parte, as “atrizes” (para não citarmos suas outras qualidades, intrínsecas e extrínsecas) da Silenciosa gostam muito do papel de atrizes, tem satisfação e comprazimento naquilo. O ator da Silenciosa também atua como “produtor” (para não nos atermos em suas outras funções sociais ou titulações). Há entre nós o desejo do contato, estamos experimentando a convivência e absorvendo a tainha por algum canto onde a salsicha, agora, não poderá entrar. Sim, nós temos um gráfico de ações! Estamos em terras brasileiras, temos futebol por perto, temos torcidas enlouquecidas e muitas vezes xenófobas. Estamos diante do maior império teatral da cidade, o prédio do Centro Cultural Teatro Guaíra, que a tudo acompanha em silêncio sem nada poder oferecer; pedimos autorização para utilização do espaço para filmagens e parte das ações, que nos foi negada: trata-se, agora, de apenas um lindo teatro antigo e mal cuidado, outrora glamouroso, transformado em edifício de funcionarismo público contemporâneo. Na manhã da quinta-feira 9/06, rumamos todos para uma ação inusitada no Grande Auditório do Teatro Positivo, lugar gracioso, belo e meticulosamente construído para uma grandiosa cena teatral à grega. A equipe gerenciadora deste teatro — privado, vale lembrar — nos autorizou de imediato a utilização de seus espaços internos para a filmagem do vídeo pré-gravado componente do roteiro de PORNOSUSPENSE. Um palco, uma plateia dócil e inexistente, cortinados e veludos apropriados, um tango e uma punhetinha furtiva. Lá fora o frio racha as peles polacas da região. À tarde todos fazemos entrada nos quartos do hotel onde o grupo está hospedado, local de parte de nossas ações programadas para o dia seguinte. Temos contato com a exorbitante quantidade de fiações por onde obteremos energia para o funcionamento de nossa tecnologia, ainda não inteiramente dominada. Também recebemos mais instruções para o funcionamento dos nossos corpos dentro dessas ações, nossos corpos, porém, são de uma tecnologia um pouco mais dominada, talvez porque nos seja inerente, mas só talvez. Nossos roteiros trazem informações como “a verdade está do outro lado”, “o que está longe pode vir a ficar perto”, Cicciolina, pizza, flâmula italiana, áudios do Google Tradutor, cenas de banheiro, dança, higiene pessoal, público dentro de um dos quartos, gente dormindo, camareiras, projeção de imagens íntimas através da janela de outro dos quartos, pratos com leite, bondage, masturbações (intelectuais e físicas), boneca inflável na marquise, atrito físico, denúncias de vandalismo, invasões calculadas, fumaça espetaculosa, Humphrey Bogart, James Dean e, claro, um belo e acintoso salsichão local. Câmeras, computadores e sites de relacionamento social na internet mediam tudo, a tudo olham e a tudo gravam, parodiam tudo, extrapolam tudo e a tudo contem. O PORNOSUSPENSE, realizado com uma hora de atraso (a tecnologia humana também falha), às 19 horas da sexta-feira 10/06, aliviou nossa tensão. Tivemos, com ele, um meio de pôr para fora o tesão grupal recolhido, na primeira ação artística inédita e conjunta realizada entre ERRO Grupo e Companhia Silenciosa depois de oito anos de namoro e rusgas à distância. A gozada foi boa, porém.

No meio dia do sábado 11/06 seguinte, nós nos encontramos relaxados, participativos e opinativos para uma conversa muito esclarecedora dos rumos em questão nesse nosso intercâmbio sulista. Surgiram-nos questões chave como: teatro, performance art, teatro dramático e teatro pós-dramático, lugar de onde se vê, lugar de onde não se vê, reação física ativa do espectador, espetáculo, arte diluída no cotidiano, visibilidade X invisibilidade como posicionamento político, características das funções próprias dos atores, características das funções próprias dos performers, características das funções próprias dos atores/performers, características das funções próprias dos diretores, características das funções próprias dos produtores culturais, características das funções próprias da equipe técnica, características das funções próprias de quem mistura todas as funções anteriores, semelhanças e diferenças no funcionamento interno de ambos os coletivos, machismo, feminismo, sexismo, heterossexismo, gêneros (biológicos e artísticos), sexualidade, delimitação de fronteiras entre linguagens e a subsequente desaparição dessas delimitações fronteiriças. Nosso SalsichãoTainha está crescendo a olhos vistos!

Às 15 horas do mesmo sábado, o ERRO Grupo realizou uma explanação para a comunidade local interessada sobre os temas e as articulações artísticas trabalhados no coletivo desde seu surgimento até seu momento atual. A conversa, de caráter informal, contou ainda com a apresentação de vídeos (demonstração de trabalho) e distribuição de programas de ações artísticas anteriores e mostras dos modos de produção com os quais o grupo trabalha e se relaciona. A Companhia Silenciosa está silenciosa, absorvente, e se prepara para sua próxima passagem pela capital do Estado de Santa Catarina no final da segunda metade do mês de julho próximo, quando realizará seu quinhão das ações artísticas previstas por este projeto. De minha parte (aqui anônima e subversiva) posso dizer que já estamos sentindo falta dessas coisas de que, em tão pouco tempo, somos capazes juntos. Quem viver verá!

Presenças

15 maio

Presenças conectadas

Curitiba, Florianópolis e Salvador,

12 de maio de 2011

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